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O Tripé

O patrimônio tecnológico de uma nação é um dos elementos que suportam a sua independência política e econômica. Mesmo num mundo globalizado, gerador de interdependências em todos os campos, em escala planetária, um país tem fragilizada a sua capacidade de decidir sobre políticas de desenvolvimento se não domina tecnologias básicas e não desenvolve continuamente novas tecnologias, mantendo-se refém dos que as detêm e impõem caminhos que podem não ser os que interessam à nação.

Esse patrimônio nacional é, portanto, ameaçado se são insuficientes os investimentos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, num cenário mundial de acelerados avanços que tornam rapidamente obsoletas tecnologias que não se atualizam no mesmo ritmo.

O Brasil se deu conta do seu atraso nessa corrida e está criando fundos financeiros setoriais importantes para gerar recursos suficientes para reverter esse risco. Além do que já está implantado no setor de petróleo, com a aplicação obrigatória em tecnologia de parte dos royalties devidos pelas operadoras, acabam de ser aprovados pela Câmara Federal novos fundos financeiros para o mesmo fim, nos setores de energia elétrica, transportes, recursos hídricos e aeroespacial.

A aplicação dos volumosos recursos que serão gerados pelos novos mecanismos criados deverão ser aplicados no tripé que sustenta o patrimônio tecnológico de qualquer nação: a universidade, o centro de pesquisas e a empresa de consultoria de engenharia. Cada pé tem um papel próprio e juntos, fortemente articulados, garantem a solidez do apoio. A universidade prepara profissionais capazes de dominar a ciência e a técnica em seus aspectos teóricos e conceituais, com uma adequada iniciação à prática da profissão. Os centros de pesquisa absorvem os profissionais vocacionados para a investigação e desenvolvimento científico e tecnológico que em seus laboratórios promoverão avanços e disseminação de sua produção. Essas são justamente as finalidades das atividades das universidades e centros de pesquisa, que não pretendem apenas produzir compêndios para as prateleiras de suas bibliotecas.

As empresas de consultoria assimilam os conhecimentos e tecnologias desenvolvidas, promovem a sua adequação à solução de problemas concretos de engenharia, fazem o que se chama "engenheirar" a tecnologia. São suas atividades-fins.

Articulados entre si, as empresas de consultoria podem participar da formação do universitário, seja nas salas de aula, seja nos estágios supervisionados na empresa, enquanto as universidades e centros de pesquisa são parceiros habituais das empresas na execução de trabalhos que exijam operações de laboratório e investigações especiais que não constituem sua atividade-fim. Os três deverão ser, portanto, igualmente reforçados para que o equilíbrio no tripé seja estável e o suporte seja sólido.

Os novos fundos criados para o desenvolvimento tecnológico estão direcionados especialmente para dois desses pés, as universidades e centros de pesquisa, ficando o terceiro, justamente a consultoria de engenharia, como eventual embora desejável parceiro, mas com tratamento diferenciado. Não é bom. Não é confiável um tripé com um pé fragilizado ou quebrado. O equilíbrio fica comprometido. Os investimentos nesse campo devem valorizar as aplicações práticas do desenvolvimento científico e tecnológico que cabem às empresas de consultoria de engenharia.

A interação dos três apoios poderia ser representada e visualizada naquelas travessas com que os marceneiros reforçam a resistência de um banco, "amarrando" as pernas a meia-altura, sem o quê o equilíbrio e a solidez da peça seriam precários.

Por isso, os vultosos recursos que o governo injetará em programas de desenvolvimento tecnológico deverão ser canalizados igualmente, nas mesmas condições, para universidades, centros de pesquisa e empresas de consultoria de engenharia. Que cada qual possa tomar a iniciativa de apresentar projetos e programas que atendam às demandas do seu campo próprio de atuação, buscando os parceiros que complementem a sua qualificação técnica e operacional para cada empreendimento.

Esse é o tripé que pode suportar o peso do desafio da competitividade de base tecnológica do país, em mercado aberto, já que as empresas estrangeiras que aportam por aqui, também chegam apoiadas pelas universidades e centros de pesquisas de seus países.

 

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