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Uma "gripe asiática" atinge a Consultoria
Por Helio Amorim – Diretor Executivo da ABCE
Para o Jornal do Clube de Engenharia
É mortal. A sobrevivência dos inoculados pelo vírus misterioso passa a ser colocada na mão dos seus deuses. Na consultoria, a bactéria foi identificada e se chama "preço vil". Pressionada pelo deus mercado, globalizado e ferozmente competitivo, a empresa se submete à inoculação, aceita as condições diabólicas impostas, num ato supremo de fé na intervenção divina que a salvará do desastre anunciado.
Poderia expor-se ao martírio pela recusa. Morreria por inanição, porque outros cederiam à tentação de deixar-se contaminar pela epidemia que se espalha, na esperança do adiamento do desfecho fatal ou do milagre na hora extrema. Mas os deuses estão cansados de intervir para reverter a compulsão suicida.
A salvação, teológica ou mercadológica, não é uma conquista individual. Ou nos salvamos juntos ou vamos juntos para o inferno. Somente laços de solidariedade entre todos, pactos éticos de não adesão à competição selvagem, em defesa da justa remuneração, podem levar à salvação coletiva, revertendo as ameaças do fogo eterno.
A vacina para essa gripe é conhecida, mas só tem eficácia com aplicação coletiva. Não tem efeito se aplicada a indivíduos isoladamente. Não resistiria ao contágio dos não-vacinados. Tampouco é eficaz a vacina sem o aditivo da ética, que se traduz no compromisso da prática do preço justo para assegurar a dignidade da profissão e a qualidade do produto do trabalho, com benefícios que assim resultarão para o empreendimento e seus usuários.
A epidemia asiática parece (ainda) concentrar-se em alguns países da região. Na consultoria o vírus parece concentrar-se no setor privado. Ao contrário do que se esperava do processo de privatização e concessões de serviços públicos. Antevia-se outra qualidade (melhor) de relações nos negócios com clientes-empresários, "certamente de mentalidade mais aberta", dizíamos. Está acontecendo o inverso. A cultura arraigada do contratante privado está na busca de menor preço para quem lhe fornece parafusos ou tecnologia, cimento ou engenharia.
Bem ou mal, e nada obstante as distorções conhecidas, o setor público, por imposição legal, sabe que não pode fazer obras sem projeto. E a lei induz à contratação de estudos e projetos que considere a capacidade técnica do fornecedor de engenharia e inteligência. O preço é um dos elementos a considerar, com menor peso que o da qualificação técnica da empresa. O investidor privado quer o menor preço, negocia, faz leilão, dispensa a experiência e capacidade gerencial da consultora. Contrata qualquer "empresa" criada às pressas, desde que o preço seja menor. E fica feliz com a economia conseguida na negociação dura, que vai relatar aos acionistas como sua conquista pessoal. Não percebe o risco de o trabalho de engenharia de baixa qualidade aumentar significativamente os custos e degradar a qualidade do empreendimento. A economia nos centavos se transformará em prejuízo real nos reais. Certamente não usa esse critério ao escolher a equipe médica para a cirurgia delicada que precisa sofrer. Tampouco na escolha dos advogados que defenderão os seus interesses pessoais numa demanda importante. Nestes casos, vai buscar o melhor, ainda que apele para alguma caridade do eleito nos honorários profissionais.
Ora, o custo de estudos e projetos de qualidade é irrelevante diante do montante dos investimentos que se farão com base nas suas definições conceituais e soluções inteligentes de engenharia. Se a qualidade destas é melhor, os investimentos são otimizados, a qualidade é assegurada, a economia na operação e manutenção do empreendimento será significativa. Mas os investidores ou acionistas não perceberão o prejuízo causado pela economia equivocada no ponto de partida. Ou o descobrirão tardiamente.
Se é possível resumir, os caminhos são claros. De um lado, "ensinar" aos investidores esta lição primária. Campanhas "educativas" ou "marketing". De outro lado, pelo convencimento sobre o desfecho anunciado, promover-se o pacto ético da recusa à competição predatória induzida pelo mercado distorcido nestes tempos de crise. Uma opção pela vida.
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