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Engenharia & Desenvolvimento

Eng. Angelo Vian
Presidente da Diretoria Nacional

Engenharia Consultiva brasileira está constituída hoje por cerca de 200 empresas pequenas, médias e grandes, dotadas de estrutura empresarial compatível com o seu porte, tendo pelo menos um núcleo multidisciplinar de profissionais altamente qualificados, e por um número indeterminado de escritórios prestadores de serviços técnicos de engenharia e arquitetura, geralmente pequenas firmas uniprofissionais. Algumas destas pequenas ou micro empresas detêm alta especialização em determinadas tecnologias, atuando freqüentemente como subcontratadas de empresas de maior porte.

As proposições que serão apresentadas pela Engenharia Consultiva ao BNDES neste painel, estão fundadas numa premissa básica, sem a qual não seriam sustentáveis: "A Engenharia Consultiva é um setor altamente estratégico para qualquer nação, especialmente para o Brasil, por ser um dos pilares sobre os quais se apoia e desenvolve o patrimônio tecnológico do país, ao lado das universidades e instituições de pesquisa e desenvolvimento científico-tecnológico". É portanto um dos pés de um tripé que suporta esse patrimônio e assegura o nível de não-dependência tecnológica requerido para um desenvolvimento econômico e social sustentável da nação, num mundo globalizado.

Aceita a primeira premissa, acrescenta-se a segunda, que a reforça e explicita em seus aspectos práticos de evidente constatação: "O bom resultado da implantação de qualquer empreendimento público ou privado, industrial ou de infra-estrutura, aferido pela otimização dos investimentos, redução dos prazos e dos custos de execução e manutenção, com máxima qualidade e segurança para os usuários, depende diretamente da qualidade e do correto uso da engenharia consultiva".

A qualidade da engenharia consultiva utilizada na implantação do empreendimento depende, por sua vez, da cuidadosa seleção da empresa melhor qualificada para cada tipo, natureza, campo de especialização e porte do mesmo, bem como sua justa remuneração que permita o emprego dos recursos humanos mais qualificados e tecnologias mais avançadas para cada caso.

Mais, ainda, o êxito do empreendimento depende do uso intensivo da engenharia consultiva, chamada a atuar em todas as etapas de sua implantação, desde os estudos preliminares de pré-investimento, que definirão a sua viabilidade, dos projetos básico e executivo, da supervisão e gerenciamento de sua execução, até o início de sua operação.

Se a engenharia consultiva está a cargo de empresa brasileira, as soluções de cada problema privilegiam o uso de tecnologias e processos construtivos dominados por empresas brasileiras da cadeia produtiva correspondente, especificando equipamentos, instrumentos e materiais produzidos no país. Assegura, assim, o maior índice possível de nacionalização do empreendimento, considerando toda a cadeia produtiva.

A remuneração correta e justa dos serviços de engenharia se justifica não somente pelo seu custo pouco relevante face ao volume previsto de investimentos envolvidos mas, principalmente, pelo reconhecimento, em escala mundial, de que os custos de engenharia consultiva são totalmente absorvidos pela economia que dela resulta na execução e manutenção de obras e instalações, na aquisição de equipamentos e demais componentes da sua estrutura de custos. Comprova-se muitas vezes que a alta qualidade da engenharia acarretou economia nos investimentos previstos muito superior ao seu custo total.

Por outro lado, a empresa de engenharia tem uma necessidade vital de se manter em oneroso processo permanente de evolução tecnológica, não só absorvendo mas desenvolvendo tecnologias adequadas a cada novo trabalho. Esses avanços transbordam para toda a cadeia produtiva e se incorporam ao patrimônio tecnológico do país. Trata-se, portanto, de um insumo essencial, a ser considerado nos custos da engenharia. Em termos de engenharia genética, seriam os genes que formarão o DNA do empreendimento. Se formado com alguma deficiência na concepção, o corpo nascerá imperfeito e não haverá célula-tronco que corrija a falha de origem. Um projeto concebido com imperfeições, sem exame comparativo de alternativas e consideração cuidadosa de impactos ambientais, por exemplo, pode resultar num empreendimento que não corresponda às expectativas do investidor e usuários. Poderá mesmo inviabilizar-se economicamente ou por efeitos agressivos incontornáveis sobre o meio-ambiente físico e social. Assim, a compressão de preços de engenharia consultiva é contraproducente e arriscada, pelos riscos de comprometimento de sua qualidade que se refletiria nos custos do empreendimento.

Esse conceito do preço justo se aplica igualmente aos outros componentes do empreendimento, de cuja qualidade depende o êxito do investimento. O melhor preço nem sempre será o menor, se este corresponder a fornecimentos de bens e serviços de qualidade insuficiente para a garantia de bom desempenho e segurança do empreendimento. A engenharia consultiva é o parceiro natural do empreendedor para gerenciar a aquisição de bens e serviços de qualidade assegurada, pelo melhor preço, assumindo as funções de procura, aquisições, inspeções, testes de qualidade e demais tarefas inerentes a essa atividade.

Nos empreendimentos que envolvem a participação do setor público, seja nas concessões de operação de serviços com o uso do patrimônio público a retornar íntegro no fim do período, seja nas parcerias a serem intensificadas entre investidores públicos e privados, é absolutamente indispensável o emprego da engenharia consultiva no monitoramento do desempenho dos atores, na execução e manutenção da integridade e segurança do empreendimento.

Se o envolvimento se limita ao financiamento do empreendedor, ainda assim o monitoramento é requerido, para assegurar o bom resultado da aplicação dos recursos aplicados, não bastando a tranqüilidade das garantias oferecidas pelo tomador do financiamento. Há que considerar o financiamento da agência pública como indutor da concretização de empreendimentos capazes de propiciar benefícios econômicos e sociais para o país e sua população. Assim, não satisfaz a essa condição, a simples compensação da execução de garantias ou aplicação de multas, já que o objetivo da concessão do financiamento não terá sido alcançado. O monitoramento competente e preventivo poderá evitar distorções em tempo oportuno e apontar ou redirecionar ações que reduzam riscos. As seguradoras sabem valorizar esse monitoramento como redutor de riscos, ao fixar prêmios de seguros.

Cabe ainda ressaltar um papel relevante da engenharia consultiva que supõe formas especiais de suporte financeiro. Trata-se do seu potencial alavancador de exportações de bens produzidos no país e de serviços executados por empresas brasileiras no exterior. A empresa de engenharia consultiva é a ponta-de-lança para abrir mercados através de estudos e projetos executados em países importadores potenciais. Os estudos e projetos desenvolvidos por empresas brasileiras definem especificações de equipamentos e materiais, e sistemas construtivos e tecnologias dominados por empresas construtoras brasileiras, induzindo a exportação desses bens e serviços de maior porte. Os custos dessa alavancagem de exportação são irrelevantes. Países exportadores oferecem trabalhos de engenharia doados ou com custos subsidiados pela certeza de estarem gerando exportações volumosas por esse mecanismo perfeitamente legítimo, de que o Brasil ainda não dispõe.

Finalmente, uma conclusão decorrente das premissas expostas: "A engenharia consultiva é um setor estratégico de alta importância para a nação e peça essencial para a otimização dos investimentos públicos e privados. Entretanto, as empresas consultoras constituem um setor de elevado capital intelectual mas economicamente frágil, extremamente vulnerável financeiramente às flutuações de seu mercado, não dispondo geralmente de patrimônio físico real para oferecer como garantia de operações financeiras".

O setor reclama, portanto, programas de apoio efetivo para o seu fortalecimento e capacitação permanentes, que considerem sua importância real, não como favores ou privilégios que desmereceriam o seu status de ator destacado no esforço coletivo pelo desenvolvimento econômico e social da nação.

*Exposição do autor no Seminário "Engenharia & Desenvovimento", promovido pelo
BNDES em 21/10/04, sendo co-promotores ABCE, ABEMI, CLUBE DE ENGENHARIA, SINAENCO

 

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