|
Belo Monte: leilão tem data marcada
Comentário sobre Belo Monte para opositores preocupados
Helio Amorim
O governo vai licitar a terceira maior usina hidrelétrica do mundo em Belo Monte, no Xingu. Há reações fortes de parte da população local, de índios da região, de setores da sociedade e da Igreja, preocupados com o impacto social e ambiental desse gigantesco empreendimento. Já há organizações internacionais e personagens midiáticos estrangeiros aderindo a manifestações contra o projeto. Por outras razões, importantes empresas anunciam desistência de participar do leilão programado.
Os estudos de engenharia se arrastaram por longos anos e somente a partir de 2008 foram identificados definitivamente esses impactos de inúmeras facetas e duramente construído o extenso receituário para a sua minimização.
Nesse cardápio de exigências a serem cumpridas pelas empresas que farão essa intervenção profunda no meio ambiente físico e social, foram incluídos 14 planos e 53 programas para mitigação dos impactos sobre a população e a natureza. No passado não se agia com esse rigor, o que explica desastrosos empreendimentos, como a hidrelétrica de Balbina, na Amazônia: grandes estragos ambientais e baixa produtividade na geração de energia.

No caso de Belo Monte, o melhor para a natureza seria não mexer com o Xingu, e multiplicar investimentos para melhorar a baixa condição de vida de grande parte da população local, castigada pelas cheias sazonais do rio, que inunda anualmente as precárias habitações ribeirinhas de 4.700 famílias pobres.
Entretanto, acontece o crescimento da população do país e principalmente o atendimento progressivo das demandas da população por uma vida mais digna. Esse fenômeno supõe maior produção e consumo de bens e acesso a serviços essenciais, registrados pelos números que confirmam uma saudável ascensão social das classes menos favorecidas. Essa demanda social saudável reclama sempre maior oferta de energia elétrica que já chega aos rincões rurais do país, com o letreiro de “luz para todos”. .
O desastre das inundações, esperado com santo conformismo todos os anos, no período da cheia do Xingu, foi levado em conta pelos engenheiros desde a primeira abordagem do problema. A represa deveria trazer uma solução e não o agravamento dessa situação. Os primeiros projetos, de fato, determinavam, pela altura da barragem, a inundação de 1.500 km2, submergindo não só as populações ribeirinhas mas extensas áreas urbanizadas de cinco municípios, um estrago colossal, com remoção gigantesca de famílias.
Se aceitamos que é necessário oferecer mais energia elétrica para melhorar a qualidade de vida dos brasileiros, ainda agredida pelas históricas disparidades sociais, utilizando a bendita riqueza de águas que raros países possuem para gerar energia limpa como a que prevalece no nosso país, entram em campo os engenheiros. Trata-se de aproveitar esses recursos e cuidar para que intervenções necessárias na natureza e na sociedade não sejam danosas, sejam mitigadas e compensadas por outras tantas intervenções complementares.
Assim, foi adotada uma solução mais onerosa para a produção de energia: modalidade de geração elétrica por “fio d´água”, que reduz drasticamente a altura da barragem para a cota 97m e consequentemente a inundação dos 1.500 para cerca de 500 km2. Essa é a cota da inundação que ocorre todos os anos, ou seja, vai ser inundada permanentemente a mesma área que é inundada no período da cheia. Serão então desalojadas e relocadas as 4.700 famílias que sofrem pacientemente com esse fenômeno natural das cheias e suas consequências. Para estas, um dos muitos programas exigidos pelas autoridades ambientais, serão construídas casas e urbanizadas áreas que ofereçam melhoria de condições de vida para toda a população atingida. A lista de exigências aos construtores não cabe nesta página.
O lado inquietante da moeda terá que ser cuidadosamente tratado no dia a dia dos quatro ou cinco anos de obras, exigindo uma gestão social de alta competência: vão trabalhar na construção cerca de 18.000 pessoas, talvez a maioria vindo de outras regiões. O impacto será complicado. Haverá 2.800 equipamentos funcionando sem parar: caminhões, guindastes, tratores... Nessa faceta agressiva da “invasão dos bárbaros”, numa região que já não é tão tranquila, devem ser concentradas todas as preocupações que exigirão monitoramento da sociedade organizada e atenta, para que ao fim, prevaleçam os benefícios dessa revolução. (Publicado Boletim REDE abr. 2010).
|